Lesões ligamentares do punho e da mão

por | 08/05/2020 | Lesões ligamentares, Traumas

Lesões ligamentares dos dedos e punho são tão comuns, quanto subdiagnosticadas.
A maioria dessas lesões são parciais e cicatrizam sem deixar sequelas. Outras, fazem parte dos maiores desafios da cirurgia da mão.

O termo “pulso aberto” é bastante corriqueiro. Não há uma lesão específica que se encaixe nessa gíria. Mas, instabilidades da articulação rádio-ulnar distal, lesões do ligamento escafolunar e fraturas-luxações do carpo podem representar cientificamente o que seria um punho aberto.

Acredito que as dividir por região seja a melhor forma de se entender.

 

Instabilidade da articulação rádio-ulnar distal (ARUD)

O complexo da fibrocartilagem triangular (CFCT) é uma estrutura que se origina na região medial do rádio, sobre a fossa sigmoide (onde a ulna se articular com o rádio) e se insere na base e topo do estilóide ulnar. Há, ainda, os ligamentos ulno-carpais e rádio-carpais que auxiliam na estabilidade dessa região. 

A lesão do CFCT ocorre com rotação do punho com a mão fixa. Pode ou não estar associada a fraturas da região distal do rádio ou do carpo.

Quando diagnosticadas na fase aguda, a maioria delas cicatriza ao se imobilizar o punho, sem permitir a pronossupinação (que o antebraço gire).

Entretanto, algumas dessas lesões vão precisar de tratamento cirúrgico. 

O reparo artroscópico é a melhor opção para a maioria desses pacientes. A cirurgia é realizada de forma minimamente invasiva e o resultado pós-operatório costuma ser excelente. 

Quando a instabilidade é crônica, deve-se investir na estabilização da ARUD. Há diversas técnicas, com enxerto de tendão para se recuperar a função. Todavia, caso haja degeneração articular, procedimentos de salvação são a melhor opção. Um deles é conhecido com Sauvè-Kapandji, quando realizamos a artrodese da ARUD e criamos uma pseudartrose na região distal da ulna para permitir a pronossupinação.

Lesão do ligamento escafolunar

O ligamento que une o osso escafoide e o semilunar é peça chave da biomecânica do punho. Os ossos do carpo fazer movimentos sincrônicos quando mexemos o punho em flexão e extensão ou quando realizamos desvio radial e ulnar. Com a ruptura deste ligamento, a harmonia é perdida. Como resultado, há perda de movimento e força do punho. Se o punho continuar a trabalhar fora do eixo ideal, haverá piora do desarranjo do carpo e artrose. Essa artrose tem um padrão conhecido de progressão. 

O reparo precoce do ligamento é o preconizado. Há diversas técnicas para isso, desde a colocação de fios de Kirschner, até reinserção do ligamento com âncoras ou reparo artroscópico. Em lesões crônicas, ainda não há um padrão ouro para reconstrução ligamentar. Possibilidade de redução dos ossos desarranjados, presença de restos do ligamento, qualidade da cartilagem articular devem ser levados em consideração, assim como a habilidade de se realizar o procedimento via artroscopia.

Lesão de Stener

Lesão de Stener

Lesão de Stener

A lesão do ligamento colateral ulnar da metacarpofalângica (MF) do polegar, com interposição da aponeurose do adutor do polegar é conhecida como lesão de Stener. Uma vez que há uma estrutura entre o ligamento e o osso, não haverá cicatrização. 

O ligamento em questão é o responsável por manter a estabilidade da MF do polegar. Sem sua presença, não é possível fazer força de pinça.

O tratamento cirúrgico consiste em abrir a aponeurose do polegar, reinserir o ligamento com pontos transósseos ou com uma âncora (“parafuso” que contém fio de sutura forte para o reparo do ligamento). 

No pós-operatório, deve manter imobilização por 6 semanas, aguardando a cicatrização. 

 

Lesão ligamentar nas metacarpofalângicas e interfalângicas

Quando tratadas com imobilização ou solidarização com o dedo vizinho, costumam cicatrizar sem maiores problemas. 

Uma fonte constante de reclamação dos pacientes é o tempo de diminuição do volume da interfalângica proximal após contusões articulares e lesões ligamentares parciais, que pode chegar a 9 meses. 

 

Luxações das metacarpofalângicas e interfalângicas

Diferentemente do que é dito na mídia esportiva ou popularmente por leigos, luxação é a perda da congruência articular. Em termos simples: é quando a “junta sai do lugar”, necessitando, geralmente, de manobra para sua redução. 

Perda do final da extensão nas interfalângicas é um resultado bastante comum. Entretanto, sequelas maiores com perda de mobilidade, força e até atrose podem acontecer, a depender do mecanismo de trauma, associação a fraturas e demora para diagnóstico e redução. 

 

 

Dr. Diego Figueira Falcochio

Ortopedista especialista em mão e microcirurgia

CRM 122.897 TEOT 11.487

Leia também

Fratura-luxação do carpo

Fratura-luxação do carpo

As lesões perilunares podem variar desde lesões ligamentares com luxação dos ossos do carpo, até fraturas luxações, com uma grande variedade de padrões de fraturas e luxações.

Apesar de serem traumas de alta energia, infelizmente, uma quantidade considerável passa desapercebida por cirurgiões e ortopedistas na data do evento.

ler mais
Mão em Fenda ou Ectrodactilia

Mão em Fenda ou Ectrodactilia

A ectrodactilia, mão em pinça de lagosta ou mão fendida são sinônimos utilizados para descrever a deficiência longitudinal que afeta os raios centrais. Atualmente o termo mais aceitável é “deficiência central congênita do raio”. O formato em “V” da fenda é o que caracteriza essa anomalia, que pode ou não vir associada com ausência de um ou mais dedos. O primeiro relato na literatura foi de Ambroise Paré, em 1575, mas as primeiras descrições de mão fendida verdadeira são creditadas a Hartsinck, em 1770.

ler mais
Luxação dos dedos

Luxação dos dedos

Luxação é a lesão mais grave que uma articulação pode sofrer. É a perda completa da congruência articular. Um osso “perde o contato” com o outro. Na literatura inglesa, este tipo de lesão é chamado de “deslocação articular”.

ler mais

Pin It on Pinterest